Bartwist

“Portugal terá um whisky na Bíblia do Whisky de 2021” – Jim Murray

Autor da "Bíblia do Whisky" 03 Novembro 2019

Jim Murray preparava-se para finalmente descansar. Durante quatro meses, o mais respeitado especialista independente em whisky do mundo havia colocado todo o seu tempo e energia na conclusão do recém-lançado Jim Murray’s Whisky Bible 2020, o célebre e conceituado guia anual que serve como principal barómetro de todo o whisky produzido à escala global. Neste período, Jim Murray dedica 12 horas diárias ao seu processo de prova e avaliação, permanecendo em regime de profunda reclusão e concentração em laboratórios divididos por Northamptonshire, em Inglaterra, e Frankfort, no Kentucky, nos Estados Unidos da América.

Após um longo percurso como jornalista e escritor, dedicando-se exclusivamente à crítica de whiskies – tendo provado milhares de exemplares nas últimas duas décadas – já (muito) pouco consegue surpreender Jim Murray. Recentemente, porém, chegou à sua mesa de trabalho a primeira proposta oriunda de Portugal em toda a sua carreira. Com um misto de perplexidade e curiosidade, Jim Murray apressou-se a provar uma expressão do Venakki Woodwork Whisky, da série Rare Portuguese Cask. A experiência não poderia ter sido melhor: a atribuição de surpreendentes 93 pontos eleva, no imediato, Portugal para o topo do restrito lote de países produtores de whisky; Jim Murray, por sua vez, tratou de fazer as malas e, antes de uma merecida pausa, decidiu visitar o país e a pioneira Venakki Distillery, situada em Alpiarça.

Num evento organizado em conjunto com a Wise Spirits, Jim Murray visitou ainda a loja Whisky & Co, em Lisboa, onde teve a oportunidade de conversar com jornalistas sobre o seu trajeto e as suas opiniões. O Bartwist marcou presença numa conversa que girou, como era expectável, em torno da grande paixão pelo whisky. Sem nunca abdicar da sua sabedoria e do seu sentido de humor (com carimbo britânico), Jim Murray não escondeu a satisfação por, tantos anos depois, ainda “existirem projetos que têm a capacidade de surpreender”. Louvando os méritos do Venakki Woodwork Whisky, o especialista anunciou, em primeira mão: “em 2021, haverá, pela primeira vez, um whisky português na Jim Murray’s Whisky Bible”. As expectativas, essas, não poderiam ser melhores.

Numa primeira avaliação, Jim Murray confessa-se “muito surpreendido. Quando me informaram que existia um whisky produzido em Portugal fiquei espantado, embora, na verdade, não tenha ficado particularmente entusiasmado. Posso até dizer que as expectativas eram bastante baixas. O Venakki Woodwork Whisky foi uma enorme e agradável surpresa. É um whisky de qualidade, que respeita os critérios de produção adequados. Os portugueses podem e devem estar orgulhosos por terem este whisky”.

O whisky português Venakki Woodwork Whisky fará parte da “Bíblia” de Jim Murray em 2021

Numa conversa informal e bem-humorada, Jim Murray foi desfiando o seu trajeto perante os presentes, desde o ponto em que despertou, definitivamente, para uma carreira dedicada exclusivamente ao whisky (tornando-se no primeiro jornalista do género em todo o mundo). Antes jornalista de política e de desporto, sentiu, a determinada altura, que “não existia informação suficiente para aqueles que apreciavam, ou começavam a querer apreciar, esta bebida”. O destinatário dos seus livros está bem definido: “Escrevo para o público, sejam principiantes ou apreciadores. Estamos numa fase em que o whisky se tornou mais popular, mas também mais caro. A minha ‘bíblia’ serve exatamente como um guia para todos aqueles que gostam desta bebida, para que conheçam as várias opções disponíveis e, sobretudo, para que não gastem o seu dinheiro para beber um whisky que não é tão como bom como se anuncia, e como deveria realmente ser”.

A história de vida de Jim Murray merece uma pausa para ser (bem) escutada. Nascido em Merstham, a sul de Londres, entre o campo e a cidade, provou o seu primeiro whisky com apenas nove anos, pelas mãos de um familiar. Uma experiência inocente que, ainda assim, reservou um espaço muito próprio no seu espírito curioso. Em 1975, todavia, a sua vida mudou. Aos 17 anos, Jim Murray visitou a Talisker Distillery, a mais antiga do género ainda em atividade na Ilha de Skye, na Escócia. Provar a bebida, servida diretamente do barril, modificou completamente a perceção e a vida de Jim Murray. “Foi uma autêntica revelação”, confessa. O whisky passaria a fazer parte de si, para sempre.

Hoje, Jim Murray é uma autoridade incontornável no universo do whisky. O peso das suas opiniões define o sucesso (ou o insucesso) de um produto. “Considero-me um tradutor”, refere, passando a explicar de imediato: “Tento fazer a leitura de um determinado whisky e descrevê-lo em inglês, para que todos o possam perceber”. Oposicionista convicto de aditivos (como o caramelo, por exemplo), Jim Murray defende que um “whisky deve ser finalizado de forma simples e valer por si mesmo. Os acabamentos com misturas servem, apenas, para contornar problemas que existem nas destilarias”.

Para assinalar a sua estreia no nosso país, o especialista aceitou o desafio de descrever e exemplificar o rigoroso “Método Murray” de prova de whisky, que respeita a um conjunto rígido de critérios, levado a cabo sem quaisquer cedências. Captar o odor e o sabor de uma bebida respeita critérios específicos, através de uma equação que prioriza sentidos como o olfato e o paladar, mas que também exige evasão total e condições físicas e psicológicas adequadas ao momento. Seguindo a sua própria regra, a qualidade do Venakki Woodwork colocou Portugal no currículo de Jim Murray, e no mapa dos países produtores de whisky.