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“Nós temos imensas capacidades e Portugal tem tido resultados magníficos” – Pedro Duarte

Finalista da Patrón Perfectionists 02 Janeiro 2020

Vencer na Península Ibérica deu a Pedro Duarte, de 27 anos, o passaporte para a final de uma das mais relevantes competições de cocktails do planeta, a Patrón Perfectionists. Vamos ver como o jovem de Vila Nova de Gaia, que trabalha num bar-restaurante no Porto, se comporta entre os próximos dias 18 e 24 de janeiro na Hacienda Patrón em Jalisco, no México. São 22 finalistas de vários pontos do globo e apenas seis irão passar à finalíssima que consagra o melhor dos melhores.  

O que significa estar na final de uma das mais importantes competições de cocktails do mundo? 
É um orgulho muito grande. A competição ainda não terminou, houve um percurso até aqui. Acima de tudo, diria que é sinal de muito trabalho. 

Esse trabalho começou há quanto tempo? 
Comecei a trabalhar em bar apenas há três anos. Desde início, procurei sempre evoluir e estar rodeado de pessoas, de influências que me fizessem avançar. Tinha pensado participar nesta competição porque já tinha tido sucesso no início do ano – ganhei a Cocktail Vintage Competition do Lisbon Bar Show [premiada com uma viagem ao Bar Convent Berlin] – e também passei à final de uma competição da Pisco 1615 – aqui percebi aquilo em que não estive tão bem e o que podia fazer melhor. 

Então achei que seria um ano de crescimento nesse sentido, avançando para uma competição com outro tipo de exigência. Não escolhi ao calhas, optei pela competição em que, à partida, me sentiria melhor, em que seria mesmo um peixinho dentro de água por assim dizer. Cada competição tem o seu estilo e esta era a que para mim fazia mais sentido, tendo em conta o que tinha visto nos anos anteriores. Neste momento, posso dizer que foi uma escolha acertada porque os primeiros resultados apareceram. 

Ser considerado o melhor da Península Ibérica na competição da Patrón já é um feito…
Tenho noção da importância de ter vencido as duas etapas [portuguesa e ibérica] até porque tenho noção do trabalho e das pessoas com quem me cruzei em ambas. Mas isto é um pouco como uma equipa de futebol que chega ao final de uma competição e perde. Eu sei que já ganhei as duas etapas, mas a verdade é que a grande final é aquela que vai acontecer no final de janeiro no México. Não sinto uma sensação de relaxamento ou de conforto; sinto é uma pressão e claramente a falta de qualquer coisa. Pode considerar-se um feito, sim, mas nesta altura não o consigo sentir. Isto ainda está a meio do caminho.

Seja qual for o resultado final, o que é que esta competição representa na sua carreira?
Tem pouquíssimo tempo, mas a verdade é que dediquei-me o máximo possível durante estes três anos para poder colher alguns frutos agora. Penso que estou no caminho certo. Eu gosto imenso da área de bar e tento colaborar de todas as formas que posso. Há três anos, uma das primeiras coisas que fiz foi utilizar as redes sociais para procurar pessoas e fazer uma ou outra pergunta para a qual não conseguia achar resposta naquela altura. 

Conheci pessoas super simpáticas e amáveis que me ajudaram em imensas situações, desde enviarem uma mensagem a fazerem um vídeo a explicar coisas. E isso acontece agora um bocadinho ao contrário. Pessoas que perguntam, que me pedem ajuda numa ou noutra coisa. Isto é sinal que o trabalho que tenho tido está a ir em direção a alguma coisa. Que considero importante na minha carreira e, ao mesmo tempo, uma questão de afirmação. É passar de uma pessoa que gosta muito da área, que se foca muito, para agora haver o devido reconhecimento. 

Qual o cocktail que vai levar à final e a história por detrás dele? 
Pensei num cocktail que se adaptasse à competição, com o meu cunho pessoal e algo diferente no estilo. Uma das recomendações é que o cocktail deveria ser inspirado na nossa cultura ou no nosso país. Acabei por escolher o nome Nau, que remete imediatamente para Portugal e para a época dos Descobrimentos, sendo essa referência apenas de forma subtil. 

Contei então a história por detrás do cocktail, que no fundo é uma história de amor. Peguei na paixão que a Patrón tem pelos seus trabalhadores e clientes e tentei aplicá-la a uma história verdadeira, passada há cerca de 30 anos. É a de um rapaz que decide mandar uma carta sem destinatário e escreveu no envelope: “Senhor carteiro, por favor, entregue isto à miúda mais simpática da aldeia”. O carteiro alinhou na brincadeira e entregou a carta a uma jovem. O rapaz atrevido e a jovem começaram a trocar cartas e, depois de muito vai-e-vem, decidiram marcar um encontro. Foi amor à primeira vista e ainda hoje estão casados. Estes 30 anos são também aproximadamente o tempo de existência da Patrón.

E quais são os ingredientes do cocktail? 
É feito com um vinho do Porto branco extra seco – a grande bandeira do nosso país – e o vinho do Porto branco é algo ainda relativamente novo lá fora, nomeadamente nas Américas. Então, decidi pegar nesta Nau e levar-lhes um produto novo. Inevitavelmente, pegando um pouco nas Descobertas, juntei curcuma. 

Leva também coentros, um ingrediente um pouco mais exótico, mas que é um dos pontos chave da intensidade e do sabor do cocktail. Eles fazem a ponte entre Portugal e México porque ambos adoram coentros. Já o vinagrete é como o carteiro: faz a ligação entre as culturas portuguesa e mexicana. Depois, aquafaba, que é água de cozedura de grão-de-bico. Num cocktail é utilizada para dar textura. É um produto vegan e reutiliza uma água que, de outra forma, seria deitada fora. Por fim, e não menos importante, a tequila Patrón. Este cocktail faz sentido com esta tequila. Se for feito com outra tequila já não funciona da mesma forma. 

Chegar à final mundial é um resultado sem dúvida pessoal, mas é também um exemplo de evolução da mixologia portuguesa?
Claramente. Basta lembrar que nós entramos nesta competição com Espanha e foi de lá que saiu o vencedor do ano passado [Yeray Monforte]. Agora, o representante deste espaço nem sequer sai de Espanha, sai de Portugal. Obviamente que isto tem que ser visto com bons olhos por quem está lá fora. Nós temos imensas capacidades e Portugal tem tido resultados magníficos. Tem havido investimento em bares, em produto e temos cada vez mais formados. Temos pessoas a trabalhar lá fora, por exemplo, com resultados extraordinários. 


Leia aqui a receita para o cocktail Nau.