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“Estamos na segunda idade dourada” – Jeff ‘Beachbum’ Berry

06 Junho 2019 Redação

Antes de falarmos com Jeff “Beachbum” Berry no Lisbon Bar Show já tínhamos percebido que estávamos perante uma lenda viva pelas várias incitações dos seus pares para que ouvíssemos a sua palestra. Curiosos, não perdemos a oportunidade de falar com este norte-americano, a quem o jornal The New York Times chamou “O Indiana Jones das bebidas tiki”. Conversámos sobre cultura tiki, como não podia deixar de ser, mas apreciámos bastante o que nos ensinou sobre a arte de ser bartender.

Jeff escreveu sete livros sobre receitas deste universo, tem uma marca de utensílios de bar inspirados na mesma temática e é dono do bar/restaurante Beachlife Berry’s Latitude 29, situado em Nova Orleães.

Jeff “Beachbum” Berry à conversa com o Bartwist no Lisbon Bar Show. Imagem: Direitos Reservados.

O mais provável é o leitor saber o que é a cultura tiki. Para quem não sabe, podemos dizer que estes bares foram bastante populares entre 1933 e a década de 70 do século passado, “entre a Depressão e o ‘Disco’. Morreram nos anos 80, os anos negros dos cocktails. O renascimento dos cocktails aconteceu nos finais da década de 90, em Londres e em Nova Iorque; agora estamos na segunda idade dourada”, avaliou Jeff, em declarações ao Bartwist.

A decoração de um bar tiki obedece a uma temática exótica e neles podemos apreciar cocktails elaborados, muitas vezes à base de rum, como os famosos Mai Tai e Zombie. O ambiente destes estabelecimentos baseia-se numa conceção romantizada das culturas tropicais, nomeadamente as polinésias, e alguns deles incorporam temas náuticos ou elementos retro.

Atualmente com 61 anos de idade, Jeff é um antigo jornalista e guionista em Hollywood. Sem dúvida com muita humildade, definiu-se como “um bartender que queria aprender a fazer bebidas tropicais”. Por isso procurou as antigas receitas e como fazê-las, em Los Angeles.

Passou os anos 90 do século XX e os primeiros deste século nesta cidade californiana a pesquisar as receitas perdidas dos tiki bars, que nunca tinham sido publicadas. Segredos comerciais valiosos, mas que não se podiam encontrar numa biblioteca, num livro ou revistas antigos. Era preciso encontrar alguém vivo que conhecesse as receitas e convencê-lo a dizer o que havia nelas.

“Mas como estava no sítio certo e no momento certo, fui capaz de encontrar essas pessoas. Encontrei as receitas e publiquei-as em livros”, recordou Jeff. Atualmente, o autor profere várias palestras um pouco por todo o mundo e, no Lisbon Bar Show, falou do cocktail Planter´s Punch e dos 300 anos de história desta bebida, que surgiu no século XVII, no sudoeste da Ásia, e foi trazida por marinheiros para a Europa, nomeadamente Londres, Paris, Lisboa e Amsterdão.

“O mais importante não é a bebida, o mais importante é o contacto que estabeleces com o teu convidado.”

– “Beachbum” Berry

Mas o que é que “Beachbum” Berry considera importante para alguém ser um bom bartender? A primeira máxima é uma espécie de guião para tudo o que se segue: “O mais importante não é a bebida, o mais importante é o contacto que estabeleces com o teu convidado.”

“Qualquer um pode aprender a fazer uma boa bebida, mas nem todos podem relacionar-se com as pessoas e fazê-las sentir confortáveis, bem vindas”, complementa Jeff, reforçando esta leitura com as palavras que costuma ouvir de um amigo: “Eu posso explicar-te como fazer uma bebida, mas não posso ensinar-te a ser uma boa pessoa.”

A escola japonesa diz: um encontro, uma chance. “Um convidado chega ao teu bar e só tens uma oportunidade de o fazer sentir confortável e ser um bom anfitrião.” E depois há também a arte de fazer o difícil parecer fácil. “Tens de fazer com que o convidado se sinta confortável e relaxado. Não interessa o quanto estás ocupado a fazer bebidas. O espírito é dar o melhor que tens de ti para seres o anfitrião perfeito.”

Se ambiciona um dia trabalhar com Jeff, deixamos-lhe já aquilo que precisa para convencer o norte-americano: “Quando quero contratar alguém, procuro contratar pessoas que ficam felizes por fazerem os outros felizes. Isso é o bartender ideal.”

Embalados por falarmos tanto sobre bares, quisemos saber, por último, quais as músicas que Jeff ouve atualmente: “Stereolab, Ennio Morricone, música exótica e Bossa Nova”, revelou-nos.